Gerontologia e Saúde do Idoso

04-05-2015

Envelhecimento: Por que a Psicanálise?

Ao contrário do pensamento 

 

A invenção da psicanálise fundada nas descobertas iniciais de Freud mudou o modo de vida do homem no início do século XX, Mezan (2003) refere-se as três feridas narcísicas da humanidade. A primeira com Copérnico no século XVI que marcou a mudança do universo geocêntrico para o heliocêntrico sendo a terra apenas um planeta dentre outros e não mais o centro do universo como se pensava. A segunda ferida, ou revolução, veio com a obra de Darwin no século XIX ao provar nossa ascendência animal através da evolução por seleção natural, o ser humano saia do lugar onde era a obra prima de Deus criado a sua imagem e semelhança. Por fim Freud ao perceber que o homem não tem o controle sobre as próprias escolhas credita ao inconsciente o papel de guiar os caminhos trilhados, ou seja, não somos senhores de nós mesmos, nossas escolhas são marcadas pelo que desconhecemos. 

 

Hoje pouco mais de cem anos após a fundação da psicanálise com as descobertas iniciais de Freud e sendo desenvolvidas por outros psicanalistas como: Anna Freud, Melanie Klein, Winnicott, Jacques Lacan, entre outros, a psicanálise fornece um campo de saber amplo para reflexões sobre o modo de vida do ser humano. Possui ferramentas e conceitos para pensar as formas de mal estar na sociedade atual. Inclusive as questões relacionadas à velhice e o processo de envelhecimento. 

 

Socialmente a velhice é por vezes vinculada a um mundo restrito e limitado, ao velho é negado o futuro por conta da proximidade da finitude. Na ordem atual ser velho é um sintoma,  uma das formas de mal estar na sociedade, em muitos casos renegada ao isolamento e esquecimento. Ao se tornar idoso, ou velho,  o sujeito é desvalorizado, em geral associa-se o velho ao obsoleto, enquanto por outro lado valoriza em excesso o novo. Sendo assim faz-se necessário buscar na velhice novas possibilidades e novos sentidos para que se possa subverter o pensamento atual e compreender as reais necessidades dos idosos, ouvir o que é mais singular da experiência humana: seus sintomas, inibições e angústias. 

 

Ao pensar a velhice na perspectiva da psicanálise orientada pela  

O idoso enquanto coautor da realidade deve tentar sair do lugar de solidão em busca de novas atividades e projetos visando manter-se ativo. Na velhice deve ser permitido o direito a novos planos, definir os rumos da própria vida e o futuro. Manter vivo o desejo já que a vida humana caracteriza-se pelas mudanças. Assim podemos buscar melhorias na qualidade de vida dos idosos. Dedicar tempo para ouvir o discurso dos idosos abre portas para um entendimento das questões surgidas frente às limitações impostas. Tal ato pode parecer simplório, mas contempla um suporte emocional importante para a saúde mental e a mudança subjetiva.

 

 

MEZAN, R. FREUD - A conquista do proibido. São Paulo, Ateliê Editorial, 2003.

 

 

Apesar dos aspectos biopsicossociais intrínsecos ao envelhecimento que trazem consequências tanto para a sociedade como para o individuo, existe outra perspectiva possível para observar a velhice. Perceber o idoso como sujeito do desejo, sugere a psicanálise, oferece novas possibilidades já que nenhum envelhecer é igual ao outro. Por mais que biologia e cultura aproximem os sujeitos, cada idoso tem sua própria história e cada existência suas particularidades. O idoso pode ser visto como construtor da realidade que vivencia considerando sua história, o modo de relacionar com o outro, seu desejo inconsciente e assim suas escolhas. Para isso a psicanálise nos fornece ferramentas para pensar a velhice de uma forma revolucionária, para além do tradicional pensamento cientificista normalizador da subjetividade tão presente na atualidade. 

Salvador Dali, Las Tres Esfinges de Bikini.

V

 

Psicanálise: O velho e o novo

09-05-2015

 

O mundo ocidental nesse período também passou por diversas transformações, entre elas: desenvolvimento da tecnociência que proporciona hoje facilidade de comunicação e transporte, acesso rápido a informações com a difusão da internet, avanços na medicina e na farmacologia que promoveram cura para inúmeras doenças, consequentemente diminuindo a taxas de mortalidade, aumentando longevidade no planeta. 

Imagem: Surrealismo de Salvador Dali

Nessa mesma perspectiva de transição da sociedade do século XX para o XXI, Bauman (2010, pag. 19) sociólogo polonês observa a mudança na sociedade de produção do século passado para a sociedade de consumo na atualidade,

 

a grande questão, a meu ver, é saber se tais idéias podem sobreviver a passagem de uma sociedade de produtores para outra, de consumidores. De uma sociedade vista como um produto coletivo de trabalho compartilhado para uma sociedade percebida com o um contêiner de mercadorias a se ganhar – para a apropriação, prazer e imediato dispor -, como tende a ser o caso, quando ela é abordada do ponto de vista das preocupações consumistas e das estratégias de vida. Em outras palavras, as instituições democráticas estão endemicamente inclinadas a promoverem os valores coletivos contra os valores individualistas, a cooperação contra a competição, a ordem da igualdade contra a ordem do egoísmo? Ou as estruturas democráticas de governança ser assemelham a máquinas de venda automática, que só liberam o que foi colocado dentro delas?

 

O nascimento da psicanálise refletiu uma época onde as repressões da cultura sobre o indivíduo eram marcantes. Hoje a relação do homem com a sociedade é atravessada pelos ideais do materialismo capitalista, pelo apelo ao hiperconsumo e ao novo, ou seja, um modo de vida que direciona o sujeito ao excesso e não mais a repressão. Tal mudança tem implicações psicológicas e consequências nas maneira de relações humanas. A transição do século XX para o XXI foi marcada pela transição da economia de produção coletiva, para a atual que é focada no consumo.

 

Roudinesco (2000) observa a globalização como momento marcante da transição dos modelos econômicos, a busca pela ampliação dos mercados consumidores principalmente nos países emergentes aparece como manifestação do incontrolável e insaciável apelo para o excesso e a novidade. Assim o homem é transformado apenas num consumidor desconsiderando toda a subjetividade, o desejo e o inconsciente. Visto como um consumidor o sujeito perde seu sentido histórico e coletivo, nada daquilo constitutivo do ser interessa ao contexto do mercado onde até mesmo a saúde é mercantilizada, o tempo de atendimento em consultas destina-se apenas a diagnosticar e remediar, ao invés de tratar o ser humano. Ignora-se tudo que tem característica histórica e subjetiva com a finalidade de normalizar e enquadrar para enfim medicar.

 

Na sociedade brasileira, as questões da saúde não estão por fora da lógica do consumo e os atendimentos na área de saúde fundamentam-se no paradigma biomédico que segundo Capra (2006, pag. 116) tem

 

influência do paradigma cartesiano sobre o pensamento médico resultou no chamado modelo biomédico, que constitui o alicerce conceitual da moderna medicina científica. O corpo humano é considerado uma máquina que pode ser analisada em termos de suas peças; a doença é vista como um mau funcionamento dos mecanismos biológicos, que são estudados do ponto de vista da biologia celular e molecular; o papel dos médicos é intervir, física ou quimicamente, para consertar o defeito no funcionamento de um específico mecanismo enguiçado.

 

O autor utiliza o termo biomédico para caracterizar que biologia e medicina andam juntas, onde as concepções dominantes na biologia são incorporadas pela medicina. Pensar o corpo humano como uma máquina significa compartimentar e dividir. Surge desse modelo mecanicista as inúmeras especialidades da medicina atual, com um olhar fragmentado sobre o ser humano onde a doença, ou qualquer fator que influencie negativamente no funcionamento do corpo, é visto como uma avaria na máquina, sendo trabalho do médico consertar o defeito. Tal atitude reducionista negligencia principalmente os aspectos psicológicos, sociais e ambientais da saúde. Roudinesco (2000, pag. 24) esclarece sobre a relação saúde e medicamento que marca o paradigma biomédico,

 

o poder da ideologia medicamentosa é tamanho que, quando ela alega restituir o homem os atributos de sua virilidade, chega a beirar a loucura. Assim, o sujeito que se julga impotente toma Viagra para pôr fim a sua angústia sem jamais saber de que causalidade psíquica decorre seu sintoma, ao passo que, por outro lado, o homem cujo membro é realmente deficiente também toma o mesmo medicamento, para melhorar seu desempenho, mas sem jamais apreender de que causa orgânica decorre sua impotência. O mesmo se aplica à utilização dos ansiolíticos e dos antidepressivos. Uma dada pessoa ‘normal’, atingida por uma série de infortúnios – perda de uma pessoa próxima, abandono, desemprego, acidente –, vê ser-lhe receitado, em caso de angústia ou de uma situação de luto, o mesmo medicamento receitado a outra que não tem nenhum drama para enfrentar, mas apresenta distúrbios idênticos em virtude de sua estrutura psíquica melancólica ou depressiva.

 

Fica clara a importância do medicamento no tratamento de doenças, as descobertas das vacinas e antibióticos no tratamento de enfermidades orgânicas são importantes. No entanto a critica se funda na generalização do uso da farmacologia para tratamento de diversas enfermidades sem mesmo cogitar a possibilidade de outras intervenções, a crítica tem fundamento na ideologia difundida. Principalmente na manifestação de sofrimento diante de uma perda. Tentar curar a dor de um enlutado apenas com antidepressivos, ou outra medicação, é calar a subjetividade, negar a possibilidade da construção de sentido após a perda. 

 

O paradigma biomédico está enraizado e segue perpetuado para atender interesses capitalistas de grandes instituições como hospitais, laboratórios farmacêuticos, planos de saúde, entre outros. Destina-se a manter o sujeito como uma peça da imensa engrenagem quantitativa do consumo, mascarando assim as necessidades qualitativas de determinados grupos sociais, como o dos velhos. O sujeito, aos olhos das instituições de saúde públicas e privadas, tem valor apenas pela quantidade do que possui, ou de acordo com seu plano de saúde, como possível consumidor de algum produto ou serviço nas instituições privadas. De forma semelhante nas instituições públicas tem sua identidade ligada a um número de prontuário e seu valor apenas como índice de produtividade de acordo com número de atendimentos em estatísticas epidemiológicas eleitoreiras – percebe-se isso nos planos governamentais para tentar melhorar a saúde pública, onde mais médicos e mais atendimentos significam melhorias na saúde da população.

 

Diante de tal atitude que refletem na forma como tem sido construído e difundido o conceito de saúde é fundamental repensar a realidade de acordo com o que se apresenta atualmente. Buscar refletir e re-significar ideais, preconceitos e julgamentos que mascaram interesses, visam manter certa ‘ordem’ e um suposto ‘progresso’ para perpetuação do paradigma fundamentado no consumo. A exigência e apelo ao novo, onde tudo que é velho torna-se obsoleto, sem valor e consequentemente renegado ao exílio e esquecimento.. 

 

Referências

BAUMAN, Z. Vida a crédito. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2010.

CAPRA, F. O ponto de mutação. São Paulo, Cultrix., 2006.

MEZAN, R. FREUD - A conquista do proibido. São Paulo, Ateliê Editorial, 2003.

ROUDINESCO, E. Por que a Psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.

 

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Última atualização - 29/04/2020

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