ENFRENTANDO UMA SOCIEDADE PATOLOGIZANTE E SEU PODER “VITIMIZADOR” PELA PROMOÇÃO  DO SER HUMANO

07-11-2017  por Rogener Almeida Santos Costa

Quando se trata de fenômenos humanos é, no mínimo, ignorância abordarmos em perspectiva “ unicausal “ ou de forma determinista. No entanto, não é possível ignorar aspectos fundamentais entrelaçados como uma teia de fatores que favorecem ou desfavorecem o desenvolvimento e a manifestação da violência como expressão marcante nas personalidades dos sujeitos.

É verdade, também, que a sociedade capitalista, pautada na competição, no tirar vantagem do outro e em um modelo machista de relações, favorece múltiplas formas de exploração do fraco pelo forte, criando complexos e sutis mecanismos de perpetuação da violência nos relacionamentos. Isso nos instiga a continuar denunciando e rompendo modelos, no entanto, é muito perigoso a ênfase maniqueísta e a vitimização da mulher porque retira dela a competência, a liberdade e sua responsabilidade nas escolhas e o mais  grave: é um modo de tratá-la como incapaz. Todos somos responsáveis. A sociedade pelo sistema adotado, os criminosos são responsáveis pelos seus crimes, mas todos nós somos responsáveis pelas escolhas que fazemos. Onde não há escolha não há culpa e onde houve ou há escolhas, há responsabilidade e culpa e é digno assumir a culpa.

É fundamental que meninas e meninos sejam educados para relações igualitárias que garantam a alteridade, o respeito e a reciprocidade. E para as meninas/mulheres ajudará mais sair do lugar de vítima para o lugar de quem acredita que pode ser por si mesma, vivendo livre, especialmente de relacionamentos abusivos, não aceitando um parceiro ou parceira a qualquer custo. Muitas vezes pagando com a própria vida.

Entre  os  fatores protetores ou de risco, está a família, dependendo do modelo de interação desenvolvido, especialmente nos primeiros anos de vida, está a base do desenvolvimento adulto. E aqui não é possível ignorar a quantidade de mulheres que sozinhas lutam pela sobrevivência dos filhos e na guerra pela sobrevivência financeira prevalece a ausência de casa e o estresse como pão nosso de cada dia. Crianças e adolescentes crescem no abandono afetivo, com escassas interações afetivas, sentimento de desvalor, de desamparo e em muitos casos com sérios transtornos psíquicos, bloqueados em suas habilidades socioemocionais, cognitivas e sem noção de prossociabilidade.

Não é possível pensar em combater a violência a médio e longo prazo sem políticas que atendam de maneira mais profunda as distintas configurações familiares, onde tem prevalecido o modelo monoparental com mães e/ou avós sobrecarregadas, exauridas física e emocionalmente, cuidando sozinhas  da primeira infância, sem obviamente, dar conta de todas as suas necessidades. Precisamos fomentar políticas públicas voltadas para o suporte familiar e para o investimento na qualidade do ambiente familiar de crianças e adolescentes.

É de grande importância investir na qualidade das  práticas educativas que promovam a responsabilidade e mais comprometimento com o cuidado dos filhos pelos pais e mães e de seus membros entre si. Não é possível ignorar que as crianças necessitam, tanto quanto do alimento material, de cuidados e trocas afetivas que lhe amparem e lhe inspirem no desenvolvimento da própria personalidade para que cresçam aptos à convivência social e à promoção do bem comum. Somente pela educação que favoreça a manifestação das capacidades especificamente humanas: autotrancendência e autodistanciamento se pode garantir a continuidade da civilização porque estará apta a promover a liberdade com responsabilidade e sentimento de comunhão.

Autora

Rogener Almeida
Psicóloga
Analista Existencial
Logoterapeuta
Doutoranda Psicologia Social

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