Janeiro Branco, saúde mental e estilo de vida

11-01-2021 por Rogener Almeida Santos Costa

Psicóloga, logoterapeuta, analista existencial

A campanha Janeiro Branco coloca em evidência o tema da saúde mental, e é uma oportunidade para mobilizar toda a sociedade sobre a relevância da saúde integral, considerando-se que a saúde humana é um estado de bem-estar geral que inclui aspectos físicos, psíquicos e espirituais (OMS). Já se faz explícito, não só no campo da medicina e da psicologia, que existe um paralelismo entre mente e corpo, logo,  a doença que se manifesta no plano físico impacta o psíquico e vice-versa. Quando não há saúde mental, o físico padece junto em algum dos sistemas ou em todos. Podemos, entretanto, conceituar transtornos mentais como disfunções no funcionamento psíquico que geram sofrimento constante e afetam o humor, o pensamento, o comportamento, o sono, as relações interpessoais, as relações de trabalho, causando prejuízos significativos na vida das pessoas acometidas.

Atualmente, o Brasil é o país com maior número de pessoas sofrendo de transtorno de ansiedade no mundo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde. Tendo muito elevado também o número de pessoas com transtornos do humor, como depressão e transtorno bipolar. No último ano, o fenômeno da pandemia do Covid-19 agravou essa realidade, em decorrência da situação ameaçadora em que todos se encontram, e, especialmente alguns grupos mais expostos ao risco, enquanto não se tiver vacina para imunização coletiva, bem como também pelas perdas de toda natureza ocasionadas por esta realidade. A pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Psiquiatria, ainda em maio do ano passado, constatou nos depoimentos de 89,2% de médicos, agravamento dos quadros psiquiátricos de seus pacientes e aumento na sintomatologia ansiosa, depressiva e do sono por causa da pandemia.


São muitos os fatores que impactam a qualidade da saúde mental, entretanto, os estudos apontam para relevância dos fatores genéticos, vivências traumáticas, abuso de drogas e o estresse persistente e intenso. E entre estes fatores, destaco, em minha experiência clínica, o caráter destrutivo do estresse na saúde emocional. Nosso “equipamento” biopsíquico veio preparado para lidar com o estresse, até crescemos e evoluímos quando somos submetidos a uma tensão saudável que nos provoca resolver problemas e fazer descobertas novas. No entanto, quando o estresse é intermitente desencadeia no corpo o funcionamento bioquímico desequilibrado, afetando incialmente os sistemas nervoso e endócrino, e em seguida os demais sistemas, agravando-se mais ou menos,  de acordo com a vulnerabilidade genética de cada pessoa. Por outro lado, quando o sujeito está submetido a uma situação estressora que não vislumbra saídas, entra em um estado de medo, raiva e ou tristeza profunda que bloqueia sua capacidade de autotranscender, favorecendo o estado de adoecimento emocional. 


Alguns sinais são importantes alertas para se reconhecer que a saúde mental está abalada, entre os quais vale lembrar: instabilidade no humor, apresentando  irritabilidade e/ou tristeza constante, falta de prazer em atividades que antes agradavam, apatia, alterações no padrão de sono, perda ou aumento de apetite, falta de concentração, conflitos constantes nas relações interpessoais, visão catastrófica da vida, entre outros. Diante da manifestação constante de cinco desses sinais por um período de duas semanas, é recomendado buscar ajuda profissional com psiquiatras ou psicólogos para enfrentar com os recursos adequados o processo de adoecimento que já está instalado.


Conscientes de que vivemos em um contexto sociocultural que exige rotinas extenuantes de trabalho e adaptação constante a mudanças aceleradas, precisamos assumir um compromisso maior com atitudes de prevenção. Um primeiro aspecto, é se reconhecer como um ser humano e como tal, precisa de cuidados específicos em todos os estágios do ciclo da vida. O cuidado é uma condição de vida saudável e feliz. Afirmo, portanto, que o primeiro eixo que sustenta a qualidade da saúde integral é o cuidado. Isto significa adotar um estilo de vida que reconheça a importância de todas as dimensões da vida, levando em conta o conjunto das necessidades humanas, a saber: as fisiológicas, de segurança, de vínculos afetivos, de reconhecimento e de autotranscendência, que traz como consequência autorrealização e felicidade. 


Um importante ponto de partida, para adotar um estilo de vida saudável, é rever como se está dispondo do tempo. Uma rotina desordenada, sem noção de prioridade e com sobreposição de tarefas, é estafante e desestabiliza o humor.  Distribuir o tempo do dia para atender às necessidades  de nutrição, de conexão afetiva, de vivência da espiritualidade, de produtividade laboral,  de formação, de ócio e demais que são pertinentes a seus valores. Um segundo passo, é reavaliar seus relacionamentos afetivos, reposicionando-se para oferecer e receber aquilo que de fato nutre e faz bem, e ainda fortalece suas forças de caráter e virtudes. 


É necessário lembrar que cuidar da saúde mental é cuidar da vida como totalidade. Adotar de fato um estilo de vida que seja fonte de bem-estar geral é decorrência do que se compreende como vida e do que se prioriza no cotidiano. Vale a pena se perguntar constantemente – quais são as prioridades desse estágio da minha vida? O que eu não preciso mais me submeter?  O que é possível flexibilizar agora? O que pode ser deixado para trás, para dar espaço a novas vivências, novas tarefas e a novos hábitos? 


A pandemia do  Covid-19 nos obrigou a reconhecer que temos como sobreviver ao desapego de muitos hábitos que nos pareciam imprescindíveis e mais que isso, nos comprovou que precisamos de muito pouco para viver e é condição de garantia da própria vida, saber escolher o que vale a pena no momento. 


O que achas de começar agora, não mais repetindo o velho padrão e se permitindo experimentar as novas possibilidades que a vida lhe convida? Vou trazer aqui uma provocação de Viktor Frankl, o grande neuropsiquiatra de Viena, criador da Logoterapia, que trouxe grandes contribuições para entender e promover a saúde mental no século XX. Ele propõe que se imagine como se tivesse morrido ontem, e sabendo que fez tudo errado, hoje você tem a chance de começar uma nova vida e fazer diferente da vida anterior. 


Tempo, tempo , tempo...  somos navegantes do tempo. E que ótimo que a cada 365 dias, o ciclo do tempo nos oferece uma nova oportunidade de recomeço. 

Autora

Rogener Almeida
Psicóloga
Analista Existencial
Logoterapeuta
Doutoranda Psicologia Social

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