Setembro Amarelo  e as possibilidades de prevenção para além do patológico

10-09-2022 por Rogener Almeida Santos Costa

Doutora em Psicologia Social, psicoterapeuta, logoterapeuta e pedagoga

O lema da Campanha Setembro Amarelo de 2022 é “A Vida é a Melhor Escolha”. Desde 2014, esta campanha trouxe para discussão o fenômeno do suicídio, como um problema grave de saúde pública, que atinge pessoas das mais variadas nacionalidades, idades, religião, gênero e perfil socioeconômico.  Trata-se de um importante espaço para a prevenção do suicídio, intensificando os processos de conscientização da população sobre saúde e doença mental. Entretanto, é necessário ir além do formato atual para que seus impactos sejam mais efetivos.

Por ser um fenômeno multifatorial, é importante considerar sua complexidade  e compreender a prevenção em seus aspectos biológicos, sociais, psicológicos e espirituais. Nesse sentido, realizar a campanha com ações voltadas somente para a informação e conscientização sobre o fenômeno suicídio em si, reduz muito seu alcance e não contribui para uma prevenção radical (que vai a raiz) e de maior eficácia, porque vai abordar um estágio grave da doença mental, deixando de lado o enfrentamento dos fatores de risco e o fortalecimento os fatores protetivos.

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Os dados da OMS revelam que aproximadamente 100% dos casos de suicídio se deram em pessoas com doença mental não diagnosticada ou com tratamentos equivocados. Os prejuízos causados pelos números de suicídio no mundo são incalculáveis. Na população de 15 a 29 anos, foi a quarta causa de morte. Nos países mais ricos, as taxas mais altas de suicídio ocorre entre os homens (16,6% de 100 mil) e nos países de baixa renda e média renda, são as mulheres atingidas com mais intensidade (7,1% para 100 mil). No Brasil, mais homens se suicidam (12,6% para cada 100 mil) que as mulheres (5,7% para cada 100 mil). É significativo destacar que enquanto a taxa mundial está decrescendo, nas Américas houve aumento de 17% entre os anos de 2000 e 2019, fato que nos convoca a uma responsabilidade maior para atuar com uma psicologia preventiva que reconheça e atue em perspectiva interdisciplinar.

 

É fundamental reconhecer, nas palavras do Logoterapeuta argentino Oscar Oro, que todo trabalho de prevenção em saúde humana é, necessariamente, interdisciplinar, incluindo no âmbito das ciências humanas:  Psicologia, Sociologia e Pedagogia e no âmbito da Medicina: Pediatria e Psiquiatria, acrescentando também a integração intrapsicológica, que abrange as diversas áreas do conhecimento da Psicologia, tais como Psicologia Clínica, Psicologia Social, Psicosociologia, Psicoimunoneurologia, que podem constitiuir uma psicologia da Saúde, visando promover e manter a saúde como também prevenir e assistir na doença.

 

A Psicologia articulada com as outras áreas de conhecimento tem uma significativa contribuição a dar nos três níveis de prevenção, considerando o ser humano total, como ser existencial, espiritual, psíquico e natural que está em relação constante com seu meio ambiente, e no qual pode crescer e se desenvolver saudavelmente ou adoecer em função dos fatores de risco. A prevenção que considera essa totalidade alcança os três períodos: prepatológico, patológico e pospatológico, realizando, respectivamente: prevenção primária, prevenção secundária e prevenção terciária.
 

A prevenção primária considera a promoção e proteção da saúde a partir de ações que considerem a redução dos fatores de risco, o fomento a um estilo de vida saudável, fortalecimento do meio familiar e comunitário, fomentar ética da responsabilidade, práticas educativas para a saúde, qualidade do trabalho, saneamento ambiental e outras práticas .
 

A prevenção secundária busca o diagnóstico precoce, o tratamento adequado e a prevenção de complicações, mediante ações que impeçam o progresso da doença, evitar consequências mais graves e sequelas, orientando para o tratamento eficaz e educando para as possibilidades de enfrentamento.

A prevenção terciária atua na redução dos danos causados por uma enfermidade avançada, desenvolvendo capacidades remanescentes, protegendo a saúde familiar e comunitária, diminuindo as consequências sociais e econômicas e promovendo a autotranscendência.
 

É partir dessa visão interdisciplinar que se reafirma a compreensão do suicídio como um fenômeno multicausal que requer ser enfrentado com uma prevenção que também possa alcançar o período prepatológico e que possa promover e proteger a saúde em uma perspectiva logoterapêutica e aqui concordo com a Dra. Adriana Sosa Terradas, que ao parafrasear Viktor Frankl, considera que a saúde implica o desenvolvimento do ser em sua essência e sentido. É o poder escrever a própria história vital,  querer e sentir-se querido, transformar e transformar-se, comprometer-se com algo ou alguém, participar, estabelecendo vínculos afetivos solidários: estar receptivo e aberto à compreensão do significado da própria existência.
 

Autora

Rogener Almeida
Psicóloga
Analista Existencial
Logoterapeuta
Doutoranda Psicologia Social

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