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Saúde Mental

Baleia Azul - Uma porta para o suicídio?

15-05-2017  por Lucilene Nogueira

O que pode levar um adolescente a entrar num jogo em que não há prêmios, somente dor e martírio e a recompensa final não é um ganho e sim a perda da própria vida? Qual seria a metáfora do suicídio com o nome de um animal que fascina a humanidade com a sua beleza e tamanho?
Nos últimos dias, houve uma grande quantidade de notícias pela imprensa e mídia em geral, relatando várias tentativas de suicídio por adolescentes em todo o país e apontando como causa o jogo da Baleia Azul, que induz os jovens a executarem cinquenta tarefas bizarras, que os expõe ao perigo e à dor diariamente e objetiva fazer o jovem em questão chegar à última tarefa e dar fim à própria vida.

Observa-se que apesar da extrema perversão que apresenta, o jogo trouxe à tona a temática do suicídio em adolescentes, de forma que se possa efetuar um debate sobre o assunto em todo o país. Logo, é importante o levantamento de pontos que possam servir de subsídios para discussão e apoio aos pais, familiares, amigos e principalmente, aos jovens em questão.


Com a notícia do jogo Baleia Azul se espalhando rapidamente e o destaque de reportagens relatando várias tentativas e casos de suicídio em todo o país, é compreensível que as pessoas passem a questionar se a causa para esse triste fenômeno possa ser o jogo em si ou se há uma espécie de "epidemia" de suicídio entre os adolescentes.

 
No entanto, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio no mundo, totalizando mais de 800 mil mortes por ano. Há uma estimativa do órgão prevendo que, até o ano de 2020, esse número chegue ao dobro. Outro dado apresentado é que o crescimento do suicídio se dá principalmente entre os jovens, tendo o Brasil apresentado, nos últimos 20 anos, um aumento na ordem de 20% entre jovens de 15 a 29 anos.

 
Percebe-se então, que o jogo só trouxe destaque para um assunto que até então sempre foi considerado tabu para a sociedade, pois o aumento do suicídio entre os adolescentes já vinha ocorrendo em todo o mundo.

Freud fundamenta na puberdade a adolescência e coloca como ponto crucial da mesma, o desligamento da autoridade dos pais, compreendendo as alterações corporais e psíquicas que acompanham este período, como explica Alberti (2009).  Logo, o adolescente tem que lidar com o luto de um corpo infantil que já não possui e ao mesmo tempo trabalhar a unidade de um novo corpo que se apresenta. Da mesma forma, também tem que lidar com a perda dos pais idealizados, que antes lhe pareciam onipotentes, reconhecendo as suas limitações de forma a lhe possibilitar a separação necessária e a busca de novos modelos para seguir diferentes posicionamentos diante da vida.


Dessa forma, os adolescentes enfrentam um período em que são suscetíveis à pressão por parte de vários segmentos da sociedade: os pais que cobram mudança de comportamento, já que os mesmos não estão mais na infância; a escola que por sua vez os incentiva a estudarem cada vez mais no intuito de prepará-los para a entrada no nível superior; os colegas que na maioria das vezes se dividem em grupos, confrontando o jovem com a necessidade de ser inserido num círculo com o qual se identifique, bem como por fim, existem as próprias mudanças biológicas e hormonais neste período que causam conflitos e insegurança com seu próprio corpo e identidade.


Entretanto, é necessário a ressalva de que nem todo adolescente pode tentar o suicídio por conta dos conflitos que enfrenta, e os mesmos não podem ser colocados simplesmente como causa, antes deve-se fazer uma avaliação do contexto biopsicossocial que o adolescente vive, como afirma a OMS quando relata que, “o suicídio é um problema complexo para o qual não existe uma única causa ou uma única razão. Ele resulta de uma complexa interação de fatores biológicos, genéticos, psicológicos, sociais, culturais e ambientais.”

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O órgão pontua que os principais fatores de risco que possuem relação com o suicídio são os transtornos mentais, como a depressão, o alcoolismo, a esquizofrenia, e o transtorno de personalidade boderline. São apontados também: fatores psicológicos que incluem história de perdas recentes, perdas de figuras parentais na infância e dinâmica familiar conturbada.

Propõe-se então alguns pontos a serem refletidos, com a finalidade de fomentar a discussão que se apresenta. 
A adolescência traz um período que incita à curiosidade e experimentação e em algumas vezes os jovens tem dificuldade de lidar com seus conflitos, e medo de partilhar as suas angústias com os seus pais, que já não são mais onipotentes para eles. Deve-se ressaltar que um jovem neste estado está em profundo sofrimento psíquico e que, na maioria das vezes, a própria tentativa de suicídio não visa à morte especificamente, mas sim, à uma forma de sair do problema que enfrenta, sendo então o ato, um pedido de ajuda ao seu entorno social, como explica Cassorla (2005).


Tendo em vista que a adolescência passa por vários momentos que podem gerar conflitos psíquicos, sociais e emocionais, deve-se dar o apoio necessário aos jovens, buscando escutá-los em suas angústias, inseguranças e medos que possam estar presentes em sua vida. É importante que os pais e familiares observem se há mudança de comportamento deles, capazes de ensejar ao isolamento social, à apatia ou tristeza profunda e também se há aumento significativo de agressividade. Cabe atentar se existem cicatrizes pelo corpo, provocadas por cortes, bem como se usam sempre roupas de manga comprida, mesmo que faça calor. 

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Outra medida fundamental para a prevenção do suicídio é a tentativa de aproximação com o filho sem julgá-lo, proporcionando uma escuta acolhedora e, na medida do possível, estabelecer uma conversa com o mesmo, de forma a oferecer e buscar ajuda profissional, caso necessário.
A Psicanálise se apresenta como ferramenta de apoio para a demanda do adolescente que cala a sua fala, especula e planeja terminar com a sua dor sem saber o que vem além, pois não consegue pensar em mais nada para curar o seu sofrimento, que o atravessa e transcende seu corpo com ações que findam terminar a sua existência. Através da associação livre, a escuta psicanalítica pretende dar ao sujeito através de sua fala, a oportunidade de ressignificar o seu sintoma e buscar um novo caminho para a sua angústia.


O jogo da Baleia Azul se apresenta como saída para um adolescente que não consegue estabelecer conexão com alguém que o ajude, que apresente alguma solução para o problema que enfrenta.
 Há quem relacione o nome do jogo com a misteriosa morte de grupos de baleias encalhadas pelo mundo, visto por alguns como um suicídio coletivo. A autora do texto enxerga um imenso pedido de ajuda fragmentado em cinquenta tarefas, de forma que um ser humano possa socorrê-lo a tempo. Um pedido de socorro tão grande quanto uma baleia azul.

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REFERENCIAS:
CASSORLA, Roosevelt M.S. O que é suicídio. São Paulo, Brasiliense, 2005.
ALBERTI, S. Esse Sujeito Adolescente. 2009.

Autora

Lucilene Nogueira
Psicóloga
Especializanda  Saúde Mental e Atenção Psicossocial

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